Há versos nas sombras projetadas por um sol de plástico
E o amor em bancas de jornal, vendido entre noticias e artefatos – barato
Ideografias que não conheço brotam como flores nos muros
Aprendi a ver através das margaridas, mas não entendo mais o olhar dos homens.
Minha jaqueta e meu chapéu são do século passado
Os poucos objetos, a réplica de Quixote – as batalhas dos moinhos e ventos
Meus hábitos e meus vícios são do século passado
O ofício de compor é artesanal
E o amor em bancas de jornal, vendido entre noticias e artefatos – barato.
A seriedade em ser poeta, em tempos tão incertos, de um moderno pós-concreto
Faz com que eu tenha no olhar um tom natural de tristeza – e talvez por intuição ou defesa
guarde nos bolsos discretos do sobretudo o que me resta de sensibilidade
Torna-me mais silêncio, ciente do peso do mundo
recluso, atrás dos óculos pesados e profundos
onde caminho com a manhã entre ruas e pessoas, olhares, que não sei mais decifrar
músicas, palavras, idiomas, dialetos, tudo vivo e tanto ruído
a acústica da alma leva-os por todos os meus sentidos
(ainda que do século passado, existe um poeta em mim)
que pode perceber a alma das flores, mas não entende mais o olhar dos homens.